As gêmeas, Jessica e Verônica Calton, pouco sabiam sobre a vida ou a morte, exceto pelo que ouviam na igreja todos os domingos pela manhã. Pelo menos até a noite do sábado seguinte, quando um homem do seu prédio pulou do telhado.
As irmãs logo começaram a imaginar o que teria levado o homem a tal desespero. Ele estava infeliz? Estava solitário? Estava magoado? Elas não tinham certeza, mas mesmo assim, seria interessante saber o que o levou a isso, para nunca cometerem o mesmo erro.
Dito isso, elas apagaram as luzes, deitaram-se a cama e esperaram pelo sono que lentamente as dominava. As irmãs que estavam acostumadas a dividir tudo, incluindo seus pensamentos e sonhos, não ficaram surpresas em sonhar que estavam com o rapaz no terraço naquela noite.
Na manhã seguinte elas acordaram molhadas e confusas. O rapaz que coincidentemente morava no apartamento acima do delas, deixou água ligada na banheira, antes de saltar do telhado, e não demorou muito para água inundar seu apartamento e o de baixo.
Agora secas e arrumadas para a igreja, as irmãs ficaram ainda mais confusas, por que um homem prestes a tomar banho iria se jogar do telhado?. Bom não havia tempo para questionamentos mórbidos, pois elas já estavam atrasadas para a missa.
Durante o sermão do Padre Morrison, as gêmeas que fingiam prestar atenção só conseguiam pensar em seu vizinho suicida. Elas estavam começando a ficar obcecadas pelo assunto. Quando voltaram da missa as duas adolescentes curiosas decidiram que deveriam visitar o apartamento do seu vizinho.
Cuidadosamente as irmãs checaram o corredor para certificar-se de que não havia ninguém ali para delatá-las. A porta estava aberta, o que facilitou bastante a pequena investigação das duas; o apartamento era impecável, arrumado milimetricamente, elas notaram que não havia nada fora do lugar, assim como não havia retratos ou nada que remetesse a uma família, de fato o rapaz era solitário. Elas continuaram investigando o local, à procura de algo que explicasse o seu suicídio. Logo ouviram passos próximos a porta, era o zelador do prédio, e elas já estavam com problemas suficiente, devido a um incidente envolvendo balões de tinta, e não precisavam de mais outros, então elas foram para o quarto do rapaz e se esconderam debaixo da cama. O zelador não demorou muito tempo no apartamento, e quando se deram conta de que ele já havia ido embora, elas saíram debaixo da cama e Verônica viu algo no chão, chamou sua irmã e constataram que era um bilhete suicida, mas estava quase ilegível devido ao alagamento.
As irmãs voltaram para seu apartamento com o bilhete, e o colocaram na torradeira por alguns segundos para secar. Uma vez seco, elas levaram o papel para o quarto onde o expuseram sob uma luz negra, um truque haviam aprendido com sua vizinha de parede, Morgana; e pronto, elas podiam ler o que estava escrito, o problema é que não fazia nenhum sentido, dizia:
“m3us atos podem não s3r compreendidos, ma5 para todo ato existe uma razão”.
O que esses números significariam? 335? Questionaram-se as irmãs repetidamente. Até que Verônica achou a resposta, os números correspondiam as caixas de depósito que haviam no porão, talvez houvesse algo lá.
As duas se dirigiram com pressa ao porão, procuraram pela caixa 335. Ao abrir a caixa encontraram fotos, em todas o rapaz estava só, exceto uma onde estava ele e Jessica, há dois meses. Verônica não entendia como aquilo era possível, já que as duas estavam sempre juntas. Quanto mais se recordava daquela época, mais confusa ficava. Quando olhou para o lado Jessica havia sumido, como isso era possível? Nesse momento o zelador furioso questionou o que ela fazia ali, Verônica estava perplexa com toda a situação e não pôde responder. O zelador levou-a de volta para seu apartamento e disse a Sra. Calton onde ela estava.
Quando questionada pela mãe, Verônica respondeu que estava com Jessica, e mostrou-lhe a foto.
- Nós já conversamos sobre isso Verônica, você sabe que sua irmã faleceu quando tinha nove anos – disse a Sra. Calton – essa na foto é você. Verônica contestou, mas foi subitamente atacada por suas lembranças. Lembrara do funeral de sua irmã, mas não sabia o que acontecera dois meses atrás ou na noite do suicídio. - Verônica o que você fazia na foto com esse rapaz?
- Verônica não está nessa foto mãe, apenas eu.
- Jessica? Pare já com isso Verônica! – disse a Sra. Calton
- Por que a surpresa mãe? Você realmente achou que eu deixaria a sua filha preferida sair impune da minha morte? Agora ela vai passar a vida num hospício por ter me matado, e por ter empurrado o vizinho do telhado, após ameaçá-lo com uma faca. Ela já confessou tudo com o bilhete que nós escrevemos e a polícia chegará a qualquer momento.
Sim, as gêmeas Calton sabiam sobre vida e morte até mais do que qualquer outra pessoa. Mas isso nem sempre era uma boa coisa.