“Um novo dia” anunciou o barqueiro para aqueles que aguardavam nos portais do submundo vigiados por Cérberos. Prontamente me encaminhei para o barco torcendo para que não demorasse muito a partir. Afinal, a companhia do barqueiro não é a mais agradavel de todas, especialmente quando ele fica zombando das almas em seu barco.
Ao esperarmos pelo julgamento, os guardiões das almas, se encarregaram de nos incentivar mais uma vez. Porém o discurso inspiracional não foi exatamente inspiracional. Eles falaram de tudo o que passaram nos campos de punição de Asfódelos, das semanas que pareciam infinitas no tártaro, além de outras tarefas que tiveram que cumprir para Hades. Ainda fizeram questão de assustar alguns indivíduos em particular, mas graças aos Deuses meus pensamentos estavam mais distantes e eles não tiveram interesse em tentar me atormentar.
Finalmente chegara a hora da Assembléia, os julgadores estavam a postos para a primeira audiência. Se era um novo dia no submundo eu não podia afirmar, mas para os juizes não aparentava. Eles pareciam ainda mais cansados que quando os vi no dia anterior. Lembro que em meus pensamentos rezava para que o mau humor deles não alterassem meu destino. E então as primeiras almas foram chamadas. O momento da minha audiência estava prestes a chegar e eu estava cada vez mais nervoso.
Quando chamaram meu nome mal pude responder, minha voz estava falhando e meu corpo tremendo. Quando soube que Hitler seria meu juiz fiquei ainda mais nervoso, não havia chance de ele esquecer meus erros. Eu sabia que ele faria tudo apontar meus piores defeitos e assim ele o fez. Conforme respondia os questionamentos minha situação estava piorando, os gritos no silencio do tártaro já enchiam meus ouvidos e aumentavam minhas aflições. Ao contrário dos julgamentos que acontecem na terra, aqui eu não tinha direito a um representante e só podia responder as questões com “sim ou não” o que não ajudava muito.
Os questionamentos acabaram e rápida regressão da minha vida também, ninguém havia interferido por mim e já era hora do recesso. As audiências continuaram para as outras almas, mas algumas como eu foram separadas das outras que já haviam recebido a sentença. Aparentemente nossas vidas haviam sido muito controversas para uma simples análise, seria necessário que todos os juizes se reunissem e deliberassem. Até aí tudo bem, o problema era ter que esperar mais um dia nos portais sentindo as baforadas quentes do Cérbero.

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