Mostrando postagens com marcador Crônicas do Submundo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas do Submundo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Submundo - dia #3


Olhei para os portais de entrada e para Cérberos, sabia que seria a última vez que os veria, apesar de o medo dentro de mim ser maior, estava pronto para qualquer que fosse a decisão, afinal não havia outra opção se não aceitar o que viesse.
Ao atravessar o rio Estige pude perceber uma certa mudança de ares, o barqueiro já não judiava de suas almas, acho que Hades o deve ter chamado atenção. De qualquer forma pude sentir que tudo estava prestes a mudar, tinha certeza que aquele dia seria vital para minha eternidade.
Já não me incomodava com a presença dos guardiões. Os julgadores pareciam ainda mais enfurecidos. Hitler me encarava com puro ódio nos olhos e a espera estava me matando (metaforicamente, claro). Os guardiões então fizeram mais uma divisão entre as almas, e fui mandado para o lado direito, sabia que um grupo iria receber punições e o outro seria mandado para os Elíseos, mas não sabia qual.
O suspense foi mantido por bastante tempo enquanto algumas tecnicalidades eram resolvidas entre os guardiões e o juízes. Eu estava preparado para receber minha sentença qualquer que fosse, até que os guardiões começaram a nos guiar para um grande abismo e um medo surgiu bruscamente me fazendo tremer, mas apenas por alguns segundos. Logo uma ponte começou a surgir através de uma fumaça.
Não parecia nenhum pouco seguro passar por ali, porém não havia outra opção uma vez que os guardiões nos deram ordens estritas para seguir na ponte até o final e complementaram dizendo que quem tivesse algum “peso na consciência” a ponte se desfaria logo abaixo de seus pés e passariam a eternidade sofrendo na escuridão do Tártaro.
Instintivamente fechei os olhos e caminhei sobre a ponte, continuei dando um passo de cada vez, e apesar da insegurança ainda continuava a sentir um chão sólido abaixo dos meus pés. Andei e andei sem saber onde aquela ponte levaria, até que esbarrei em algo. Não tinha certeza se devia abrir meus olhos, mas o fiz. Então pude perceber que havia esbarrado em um portão de ouro. E dentro havia um imenso jardim verde, rodeado por flores, fontes,  frutas e casas antigas, mas todas em perfeito estado de conservação. Foi quando voltei a mim e percebi que havia chegado aos Campos Elíseos.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Submundo - dia #2


“Um novo dia” anunciou o barqueiro para aqueles que aguardavam nos portais do submundo vigiados por Cérberos. Prontamente me encaminhei para o barco torcendo para que não demorasse muito a partir. Afinal, a companhia do barqueiro não é a mais agradavel de todas, especialmente quando ele fica zombando das almas em seu barco.
Ao esperarmos pelo julgamento, os guardiões das almas, se encarregaram de nos incentivar mais uma vez. Porém o discurso inspiracional não foi exatamente inspiracional. Eles falaram de tudo o que passaram nos campos de punição de Asfódelos, das semanas que pareciam infinitas no tártaro, além de outras tarefas que tiveram que cumprir para Hades. Ainda fizeram questão de assustar alguns indivíduos em particular, mas graças aos Deuses meus pensamentos estavam mais distantes e eles não tiveram interesse em tentar me atormentar.
Finalmente chegara a hora da Assembléia, os julgadores estavam a postos para a primeira audiência. Se era um novo dia no submundo eu não podia afirmar, mas para os juizes não aparentava. Eles pareciam ainda mais cansados que quando os vi no dia anterior. Lembro que em meus pensamentos rezava para que o mau humor deles não alterassem meu destino. E então as primeiras almas foram chamadas. O momento da minha audiência estava prestes a chegar e eu estava cada vez mais nervoso.
Quando chamaram meu nome mal pude responder, minha voz estava falhando e meu corpo tremendo. Quando soube que Hitler seria meu juiz fiquei ainda mais nervoso, não havia chance de ele esquecer meus erros. Eu sabia que ele faria tudo apontar meus piores defeitos e assim ele o fez. Conforme respondia os questionamentos minha situação estava piorando, os gritos no silencio do tártaro já enchiam meus ouvidos e aumentavam minhas aflições. Ao contrário dos julgamentos que acontecem na terra, aqui eu não tinha direito a um representante e só podia responder as questões com “sim ou não” o que não ajudava muito.
Os questionamentos acabaram e rápida regressão da minha vida também, ninguém havia interferido por mim e já era hora do recesso. As audiências continuaram para as outras almas,  mas algumas como eu foram separadas das outras que já haviam recebido a sentença. Aparentemente nossas vidas haviam sido muito controversas para uma simples análise, seria necessário que todos os juizes se reunissem e deliberassem. Até aí tudo bem, o problema era ter que esperar mais um dia nos portais sentindo as baforadas quentes do Cérbero.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Submundo - dia #1


Ainda não posso afirmar se minha estadia no submundo será cumprida nos Campos Elíseos ou nas Profundezas do Tártaro. A incerteza de resposta e a espera pelo juizes do destino para decidir meu caminho pode ser fatalmente prejudicada por um pequeno erro. Talvez tentar enganar a morte não seja uma boa idéia, tudo me deu mais um tempo de paz e vida, mas o que ninguém te avisa é que esse truque pode acumular várias punições nos campos de asfódelos.
As portas para o submundo abriram-se cedo naquele impactante dia, e o barqueiro já me escoltava com os olhos antes mesmo de enunciar meu nome. Não foi necessário pagá-lo, talvez do contrário a  viajem até o campo de revista e seleção não fosse tão nauseantemente demorado.
Como sempre minha fabulosa sorte, mais uma vez foi capaz de me surpreender. Durante a revista e seleção, fui logo desginado para o primeiro de quatro grupos. Esses grupos são mera formalidade para agilizar o processo durante o submundo, pois na verdade não são eficazes em separar as almas com um próposito específico, o que me deixou mais calmo e ao mesmo tempo mais preocupado, imaginando qual destino me seria sentenciado.
Os encarregados pela passagem assim como os encarregados pelos grupos ficaram felizes em discursar sobre o que poderiamos esperar do julgamento. O discurso inspiracional funcionou durante um tempo, digamos os primeiros dois minutos, por exemplo? Não sei o que se sucedeu daquelas palavras, pois minha mente já não conseguia processa-las. Por alguma razão logo percebi que o proferido era verdade, infelizmente era apenas um pouco da parte boa, ou toda a parte boa, só o processo poderia afirmar. Mas de toda forma não era toda a verdade e muito dessa verdade não passava de informação inútil.
Conforme o tempo passara, mais meus pensamentos se desprendiam do incomodo lugar. A realidade de fato não era o que eu esperava ou ouvira, em certos momentos era pior em outros era suportavel. Inportunamente a assembléia com os julgadores não ocorreu, necessitando que todos retornassem até os portais de entrada e esperassemos por outra oportunidade em outro dia.